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Neuropsicologia & Epilepsia

Updated: Feb 26, 2019


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EPILEPSIA E O PAPEL DO NEUROPSICÓLOGO

Autora: Katiúscia Gomes Nunes

  • Psicóloga – CRP 07/22809

  • Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental - IWP

  • Especialista em Neuropsicologia - UFRGS

  • Formação em Reabiliatação Neuropsicológica - HCFMUSP

  • Mestre em Psiquiatria e Ciências do Comportamento - UFRGS



A epilepsia é caracterizada como sintoma ou sinal subjacente a uma desordem neurológica, nem sempre identificada, manifesta por breves descargas elétricas neuronais, decorrentes de distúrbios nas funções elétricas cerebrais. Estas manifestações produzem crises súbitas e rápidas em intervalos ocasionais e causam diferentes consequências psicológicas, sociais e neurológicas, entre elas a disfunção cognitiva. As manifestações das disfunções cognitivas são bastante variadas, dependendo das áreas cerebrais acometidas.


Existem várias síndromes epilépticas, mas as epilepsias de lobo temporal e de lobo frontal trazem um particular interesse para a neuropsicologia, por suas correlações com as funções cognitivas. A importância da neuropsicologia na epilepsia começou após o caso do famoso paciente HM. Esse paciente diagnosticado com epilepsia e refratário ao uso de medicamentos para controle das crises foi submetido a uma cirurgia de ressecção dos lobos temporais (incluindo as estruturas hipocampais e para-hipocampais). Ele foi um dos primeiros pacientes possíveis de serem avaliados, por meio de testes cognitivos, em relação aos efeitos da cirurgia. Ele foi operado em 1953 nos Estados Unidos. Infelizmente ele apresentou um quadro de amnésia anterógrada logo após a cirurgia, deixando claro o envolvimento das áreas ressecadas no funcionamento da memória.


A partir de então cresce cada vez mais as pesquisas em torno do comprometimento cognitivo na epilepsia e na melhor seleção de testes neuropsicológicos para tal avaliação. Os testes neuropsicológicos são métodos psicométricos de investigação especificamente desenvolvidos para avaliação de funções cognitivas, da atenção, das funções verbais, visuoespaciais e executivas (capacidade de resolução de problemas novos com flexibilidade e planejamento, revelando iniciativa e autorregulação), das memórias episódicas verbal e visual e da memória semântica, buscando a associação entre função/comportamento e cérebro.


A avaliação neuropsicológica de pacientes com epilepsia busca quantificar os processos intelectuais, visando uma compreensão mais aprofundada das condições cognitivas e de sua associação com os aspectos neurológicos para, dessa forma, proporcionar melhor orientação ao paciente e familiares. Em alguns casos a proposta cirúrgica pode ser delineada a partir dessa avaliação.

Em torno de 30% da população com epilepsia não consegue atingir bom controle das crises mesmo com adequado tratamento medicamentoso e são encaminhadas para cirurgia. A grande maioria dos pacientes adultos que apresentam pouco controle das crises é formada por aqueles com epilepsias de lobo temporal, associadas ao comprometimento das áreas mesiais temporais, justamente as áreas associadas com a formação de novas memórias. Sendo assim, a avaliação da memória episódica é um dos principais focos da avaliação neuropsicológica. As áreas mesiais temporais de hemisfério dominante (esquerdo para a maioria dos destros) envolvem funções cognitivas relacionadas à memória visual, aprendizagem, consolidação e evocação de palavras, histórias e números.


A atuação do neuropsicólogo nos centros de cirurgia de epilepsia busca utilizar testes neuropsicológicos que possibilitem a lateralização das funções das memórias verbal e visual, verificar se o quadro cognitivo é congruente com os dados dos exames neurológicos, determinar o grau de comprometimento das funções cognitivas, avaliar os riscos e benefícios da cirurgia de forma funcional e, assim, colaborar na análise do prognóstico do paciente. É importante ressaltar que as funções cognitivas não são compartimentalizadas e nem sempre determinado resultado de teste específico corresponde diretamente a uma lesão cerebral específica, prevalece a máxima do raciocínio clínico.


Nas crianças e adolescentes, a epilepsia pode produzir problemas de ajustamento social, que por vezes, são confundidos com baixo nível intelectual. São comuns queixas cognitivas, sendo as mais frequentes relativas à memória. O perfil neuropsicológico possibilita orientar o indivíduo na elaboração de estratégias compensatórias aos déficits cognitivos. Pacientes com epilepsia dificilmente apresentam prejuízo na inteligência geral, as funções que geralmente são afetadas são: memória, aprendizagem, atenção, linguagem e funções executivas.


O impacto nas capacidades cognitivas de pacientes com epilepsia varia bastante quanto ao tipo de crise, à área afetada, a frequência das crises e o efeito colateral de algumas medicações antiepilépticas. É importante avaliar com seu médico quanto à realização de uma avaliação neuropsicológica caso você perceba dificuldades cognitivas ao desempenhar atividades rotineiras e/ou prejuízos funcionais na sua qualidade de vida.



Katiúscia Gomes Nunes, Psicóloga

Epilepsy is a neurological disorder, not always identified, characterized by neuronal electrical discharges, due to disturbances in the cerebral electrical functions. These manifestations produce sudden and rapid crises at occasional intervals and cause different psychological, social and neurological consequences, among them cognitive dysfunction. The manifestations of cognitive dysfunctions are quite varied, depending on the affected brain areas.


There are several epilepsy syndromes, but temporal lobe and frontal lobe epilepsies are of particular interest to neuropsychology because of their correlations with cognitive functions. The importance of neuropsychology in epilepsy began after the case of the famous HM patient. This patient diagnosed with epilepsy and refractory to the use of medications to control seizures underwent surgery for the resection of temporal lobes (including hippocampal and para-hippocampal structures). He was one of the first patients to be evaluated by cognitive tests for the effects of surgery. It was operated in 1953 in the United States. Unfortunately, he presented an anterograde amnesia immediately after surgery, making clear the involvement of the resected areas in the functioning of memory.


Since then, research on cognitive impairment in epilepsy and the best selection of neuropsychological tests for this evaluation has been growing. Neuropsychological tests are psychometric research methods specifically designed to assess cognitive functions, attention, verbal, visuospatial and executive functions (ability to solve new problems with flexibility and planning, revealing initiative and self-regulation), verbal and visual episodic memories and semantic memory, seeking the association between function / behavior and brain.


The neuropsychological evaluation of patients with epilepsy seeks to quantify the intellectual processes, aiming at a deeper understanding of the cognitive conditions and their association with the neurological aspects, in order to provide better guidance to patients and their families. In some cases the surgical proposal can be delineated from this evaluation.


About 30% of the population with epilepsy can't achieve good seizure control even with adequate drug treatment and are referred for surgery. The vast majority of adult patients with poor seizure control are those with temporal lobe epilepsies, associated with the involvement of temporal mesial areas, precisely the areas associated with the formation of new memories. Thus, the evaluation of episodic memory is one of the main focuses of neuropsychological evaluation. Temporal mesial temporal areas (left to most right-handed) involve cognitive functions related to visual memory, learning, consolidation, and recall of words, histories, and numbers.


The role of the neuropsychologist in the epilepsy surgery centers seeks to use neuropsychological tests that enable the lateralization of verbal and visual memory functions, to verify if the cognitive picture is congruent with the data of the neurological exams, to determine the degree of impairment of the cognitive functions, to evaluate the risks and benefits of surgery in a functional way, and thus collaborate in the analysis of the patient's prognosis. It is important to emphasize that cognitive functions are not compartmentalized and not always determined specific test result corresponds directly to a specific brain injury, the maxim of clinical reasoning prevails.


In children and adolescents, epilepsy can produce problems of social adjustment, which are sometimes confused with low intellectual level. Cognitive complaints are common, being the most frequent ones related to memory. The neuropsychological profile makes it possible to guide the individual in the elaboration of compensatory strategies for cognitive deficits. Patients with epilepsy rarely present impairment in general intelligence; the functions that are usually affected are: memory, learning, attention, language and executive functions.


The impact on cognitive abilities of patients with epilepsy varies greatly with regard to the type of crisis, the area affected, the frequency of seizures and the side effects of some antiepileptic medications. It is important to evaluate with your doctor about performing a neuropsychological evaluation if you perceive cognitive difficulties when performing routine activities and / or functional impairments in your quality of life.









Katiúscia Gomes Nunes

  • Psicóloga – CRP 07/22809

  • Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental - IWP

  • Especialista em Neuropsicologia - UFRGS

  • Formação em Reabiliatação Neuropsicológica - HCFMUSP

  • Mestre em Psiquiatria e Ciências do Comportamento - UFRGS



REFERÊNCIAS

  • Mäder, Maria Joana. (2001). Avaliação neuropsicológica nas epilepsias: importância para o conhecimento do cérebro. Psicologia: Ciência e Profissão21(1), 54-67. https://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932001000100007

  • Baeta, Élia. (2002). Bateria para avaliação neuropsicológica de adultos com epilepsia. Psicologia16(1), 79-96. Recuperado em 14 de fevereiro de 2019, de http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-20492002000100005&lng=pt&tlng=pt.

  • Silva, Alisson N.S., Andrade, Vivian M., Oliveira, Hélio A. (2007) Avaliação Neuropsicológica em Portadores de Epilepsia do Lobo Temporal. Arq. Neuropsiquiatria, 65(2-B):492-497.

  • Miotto, Eliane Correa, de Lucia, Mara Cristina Souza e Scaff, Milberto. (2012)

  • Neuropsicologia e as interfaces com as neurociências. Cap.: Epilepsia: a Avaliação

  • Neuropsicológica Pré-operatória. 2. Ed. – São Paulo: Casa do Psicólogo.

  • Andrade, Vivian Maria, Bueno, Orlando F.A. (2015) Neuropsicologia Hoje. Cap.: A avaliação neuropsicológica em epilepsia: uma longa história. 2. Ed. – Porto Alegre: Artmed.

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